Modelos animais para pesquisar as doenças do príon
José Pichel Andrés/DICYT O Serviço de Experimentação Animal da NUCLEUS, a Plataforma de Apoio à Pesquisa da Universidade de Salamanca, colabora com o Centro de Pesquisa Cooperativa em Biociências (CIC bioGUNE) de Vizcaya no estudo das doenças transmitidas por príons, como as encefalopatias espongiformes transmissíveis, muito conhecidas na área da pecuária como o mal das vacas loucas e, em humanos, como a doença de Creutzfeldt-Jakob. Os ratos transgênicos desenvolvidos em Salamanca ajudam os cientistas do País Vasco a aprofundar o estudo destas doenças.
Os príons são agentes infecciosos que causam estas doenças neurodegenerativas letais, especificamente proteínas alteradas muito pouco conhecidas. “Diferentemente de outros agentes patógenos, esta doença atua sem ácidos nucleicos, somente através da dobramento incorreto de uma proteína”, explicou hoje a DiCYT Joaquín Castilla Castrillón, pesquisador do CIC bioGUNE, que participou de um seminário de pesquisa no Instituto de Neurociências de Castela e Leão (INCYL), da Universidade de Salamanca.
O trabalho de pesquisa desenvolvido por sua equipe é muito variado. Por um lado, “em uma fase in vitro apresenta-se como os príons se propagam em um tubo de ensaio, o que é uma de as maiores contribuições de nosso grupo”, afirma o especialista. Por outro lado, para conhecer melhor a doença deve-se realizar as demonstrações in vivo utilizando modelos animais. Nesta fase intervém o Serviço de Experimentação Animal da Universidade de Salamanca.
“Utilizamos ratos transgênicos como modelo para as doenças do príon, de maneira que produzem em seu cérebro uma proteína de outras espécies ou com alguma mutação diferente em comparação com os animais selvagens”, explica Joaquín Castilla.
A proteína em questão está presente em todos os mamíferos. Ainda que sua função não seja conhecida, quando está mal formada adquire propriedades completamente diferentes, fazendo com que outras proteínas a sua volta, que a principio estão “bem dobradas”, também se convertam em agentes infecciosos. O processo resulta na morte neuronal, a chave deste tipo de doenças.
Implicações no Alzheimer
No entanto, as implicações desta pesquisa vão mais além. O processo pelo qual estas proteínas dobradas incorretamente, que afetam as que estão a sua volta e se espadem pelo cérebro, é conhecido como processo de tipo prião, aparecendo também em outras doenças neurodegenerativas, como no Parkinson e no Alzheimer, sem descartar a esclerose lateral amiotrófica (ELA).
Esta associação torna mais interessante o estudo da via dos príons. “Entendendo como se propagam estes, podemos entender como se propagam outras doenças neurodegenerativas importantes e, se podemos encontrar algo que possa bloquear uma propagação de tipo prião, também poderia ser utilizado, teoricamente, para evitar o avanço do Alzheimer, por exemplo”, indica o pesquisador.
Contudo, sabe-se pouco de como combater estes processo. “A razão é que não conhecemos as bases moleculares do processo. Isto acontece com muitas doenças, não podem ser combatidas se não as conhecemos bem. O más característico da doença de príon é que ocorre um dobramento incorreto, mas não sabemos como e, assim, não podemos evita-lo”.
A estrutura das proteínas alteradas continua sendo desconhecida. Apesar disso, alguns científicos conseguiram avanços interferindo em processo indiretos. Por exemplo, em uma publicação recente um grupo de pesquisadores conseguiu bloquear a reação das células diante do dobramento incorreto da proteína: o organismo reage diante do problema através da morte celular, mas é possível bloqueá-la, de modo que “as células aguentam muito mais e a sobrevivência dos animais infectados é maior”. Apesar disso, de momento continua sendo “uma doença que sempre desencadeia a morte”.